O leitor de Bernhard Schlink


Desde o lançamento de O perfume, de Patrick Süskind, O leitor é a obra alemã mais aclamada por crítica e leitores, traduzida para mais de 30 idiomas. O livro foi vencedor de inúmeros prêmios, entre os quais o Welt (Alemanha), o Grinzane Cavour (Itália) e o Laure Bataillon (França). Michael tem somente 15 anos quando conhece Hanna, uma mulher 21 anos mais velha.É o início de uma delicada relação amorosa, marcada por pequenos gestos e rituais. A leitura de clássicos de Tolstói, Dieckens e Goethe precede os encontros. Ao longo de meses, o casal repete essas cerimônias, interrompidas pelo súbito desaparecimento de Hanna. Sete anos depois, Michel, estudante de direito é convidado a tomar parte em um julgamteno contra criminosos do regime nazista. Ele descobre que uma das acusadas é sua antiga amante, o que o lança a um vórtice de culpa e piedade.


O leitor de Bernhard Schlink foi lançado em 1995 e alcançou relevo ao ser adaptado para o cinema em 2008. Não tive oportunidade de assistir o filme ainda, mas, já o considero contemplado com ênfase em minha lista de coisas a fazer no ano corrente. Fiquei bem impressionada com a obra de Schlink, sobretudo, com sua prosa simples ao tratar de temas complexos e profundos como a culpa e a responsabilidade em um contexto pós-guerra.

O autor vai além da visão, por vezes, maniqueísta do que foi o cenário do holocausto. E revela originalidade ao confrontar a geração da guerra com a geração pós-guerra, evidenciando a profunda falta de entendimento entre essas duas partes.

Amor, vergonha, culpa, sexo e moral, todos esses temas aparecem e assumem o escopo central e a razão de ser da história a nós descortinada pela relação entre um jovem de 15 anos e uma mulher de 36. Uma relação em que não basta tornar manifesta a desigualdade óbvia da idade. È bem mais que isso. E com o passar do tempo cronológico que corre e organiza os fatos da trama, a idade torna-se irrelevante. Muito mais instigante é a desigualdade que se expressa no nível social. Em que pese a natureza de ambos os personagens e a época em que viviam, é uma diferença menos óbvia por aparecer camuflada na ingenuidade peculiar de alguém com quinze anos vivendo o limiar das descobertas e na sabedoria própria de quem, com 36 anos, supostamente já experimentou diversas mudanças na vida. Nada é tão somente preto no branco, a narrativa nos diz.

Trata-se de um livro cuja leitura não pode prescindir do olhar atento que busque, palavra por palavra, indícios reveladores do mistério de Hanna. E quando conseguimos encaixar as peças cada uma em seu lugar, vem o choque por saber-nos juízes implacáveis de uma Hanna vista na superfície. E a beleza da história consiste em, junto com Michael Berg, descobrir quem é Hanna. E assim como ele, estarrecidos, constatarmos que nunca a enxergamos tal como era.

O que a levava ser como era? Quem é Hanna? A controladora que decide a natureza do encontro entre os dois marcado, sobretudo, pelo acentuado componente sexual? A metódica que insiste na rotina tríade de banho, sexo e leitura? A que se mostra estóica, até mesmo arrogante, perante o tribunal? Existem tantas perguntas relacionadas à Hanna e que, no momento, não posso tecê-las sob pena de contar a trama além do devido e estragar a surpresa. Mas, a descoberta de quem é Hanna é uma das coisas mais lindas que pude vivenciar em uma leitura.

O livro é narrado em primeira pessoa como se quisesse ser lido em voz alta. Como se déssemos voz à confusão, curiosidade, descobertas, despertares, revelações e às perguntas retóricas que Michael Berg, o leitor e o narrador não por acaso, tece o tempo todo. E essa é a natureza constitutiva do texto de Bernhard Schlink; a de possibilitar que eu incorpore as vivências de Michael e Hanna, que eu seja eles pelo breve tempo do enquanto durar a leitura. E ao seu término, sem deixar de ser eu mesma, descubro-me alimentada n’alma e intelectualmente. E assim, eu, a leitora, através de tantas leituras já feitas posso dar sentido ao que vivi e tenho ainda por viver.

O exercício da empatia parece ser a escolha adequada e criativamente pensada para estabelecer a analogia da relação de amor entre Michael e Hanna com o amor nutrido pelos alemães da geração pós-guerra por seu país. Como amar alguém que cometeu a maior atrocidade que o mundo já conheceu? Eis a pergunta disposta na orelha do livro. De modo que um livro como esse é para ser lido de maneira cuidadosa e refletida.

Um bravo para o escritor! O livro é muito mais do que sou capaz de dizer...

11 comentários:

Driza disse...

"...possibilitar que eu incorpore as vivências de Michael e Hanna, que eu seja eles pelo breve tempo do enquanto durar a leitura. E ao seu término, sem deixar de ser eu mesma, descubro-me alimentada n’alma e intelectualmente..."

Lindo, Vivi. Fiquei com água na boca pelo livro. Apaixonei-me.

bjs

Driza

Lili disse...

Eu li esse livro em dois dias. Não consegui largar. Achei em alguns momentos a tradução (nossa) ruim...Ou foi impressão? O livro nos faz refletir. E muito!!

Mas fiquei com muitas dúvidas quanto 'a pessoa' Hanna! Sei que o livro é narrado pela 1ª pessoa, sendo contado pela visão de Michael. Mas fiquei com a sensação de não saber quem exatamente foi Hanna. Talvez tenha perdido algo?! Não sei ainda definir se gostei da leitura. Mas, não se tem dúvidas quanto ao talento do autor. Talvez vendo o filme me ajude... Mas, a pós-leitura me deixou com a sensação que poderia ter tido mais...Queria saber mais, principalmente de Hanna.

Bjs
Lili

Vivi disse...

Olha, vou dizer uma coisa, li esse livro três vezes para entender o que autor queria passar com essa história. Fiz uma leitura atenta de cada palavra, de cada nuance que o autor encobre de propósito...porque o livro inteiro é uma brincadeira de fazer pensar. Tanto que o autor apresenta uma linguagem simples, alguns a tomam por árida, seca e eu a acho simplesmente estratégica. Com o intuito de não expressar sentimentos e juízo de valores deixar que o leitor julgue e descubra as respostas por si mesmo. Lili, também fiquei encucada e quando encuco para desencucar é difícil...rsrs Então, decidi que ler em uma sentada não é projeto para esse livro. E quando, finalmente, comecei compreendê-lo chorei por Hanna e por tanta gente que conheço na mesma condição que ela. (não posso falar aqui, mas, vou mandar uma mensagem por email como você pediu, Lili). Chorei de felicidade pelo privilégio de saber-me leitora. Essa história mexeu muito comigo. Ela é meio pegadinha. A primeira vista, você acha o livro mediano mas, quando nos dispomos a estabelecer uma ponte diálogo com o livro, é emocionante o que a compreensão nos revela. Mas, credito minha empolgação ao meu amor por literatura, por esse universo mágico de quem escreve e esse autor me surpreendeu, nesse sentido.

Beijos

Regina disse...

Estou com esse livro aqui em minha pilha. Com seu post e comentário vou lê-lo com muito mais atenção. Já tinha sido atraída pela matéria na Veja a respeito do filme (que citava muito o livro) e decidi pela compra. Agora você me instigou para a leitura.

bjs

Regina

Lili disse...

Vivi minha amiga, muuuuuuuuuuuuito obrigada!! Acabei de ler seu e-mail. E olha só que gozado, enquanto lia os fatos referentes a Hanna, já vinha na minha mente o que de fato estava acontecendo com ela... As suas palavras abriram realmente a minha mente. E infelizmente não tenho como reler o livro, pois acabei de trocá-lo (pois teria lido novamente). Quero agora muito ver o filme. Espero que eles façam justiça ao livro. Amiga, agradeço muito mesmo, o trabalho que vc teve em me mandar um texto muito esclarecedor e pelo trabalho claro.

O livro precisa ser lido com muita calma, como a Vivi disse, apesar de ser uma leitura "fácil" com palavras simples, o autor deixa muitos fatos nas "entrelinhas" mas precisa prestar muita atenção, pois na verdade as respostas estão todas lá...Muito interessante. Só neste aspecto já valeu muito a leitura. E esquecendo o final...o livro acabou de ter mais uns pontinhos positivos para mim rsrs

Beijos querida,
Obrigada

Lili

Pati Beatriz disse...

Olá meninas!
Adorei este livro também, mas assim como a Lili eu fiquei com vontade de conhecer mais a história de Hanna, e acho também que o filme possa mostrar algo que perdi no livro... isso que o li com bastante calma, de pouquinho em pouquinho. E justamente por achar sua leitura fácil, tomei cuidado para não passar despercebido por algum detalhe importante.
Mas em suma, é um excelente livro, um história bem delineada e com os personagens bastante marcantes.
Beijinhos

Vania disse...

Concordo, Vivi!

Sabe quando um livro se apresenta muito mais do que é, além dos que nossos olhos vêem? Senti-me assim durante a leitura que realmente requer um esforço de interpretação das subjetividades ali expressas. Mas, aquilo que me deixou perplexa foi constatar o quanto é devastador o sentimento de vergonha de si mesmo. Essa é a Hanna que eu vi!

Vania

Diana Bitten disse...

Poxa vida! Eu sempre faço escolhas erradas!

Eu PEGUEI esse livro na mão e não comprei, achando que poderia ser meio monótono!

Semana que vem eu não comeo o mesmo erro!

Adorei o post!

Patricia Cardoso disse...

Olá Vivi,

gostei muito do seu post, e este livro entrou para a minha lista dos livros que não posso deixar de ler.

Beijos,

Paty

Jeanne Rodrigues disse...

Vivi,

Sua empolgação com o livro é digna de que corramos atras dele.

Parabéns pelo comentário.

Bjos,

Paula Laurentino disse...

Simplesmente ótimo.

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