A Mulher de Pilatos


“– Mas você gosta da Marcela – relembrei-lhe, quando finalmente consegui falar. – Sempre correu atrás dela. Achei que ao saber do problema em que estava metida você iria querer ajudá-la.
– Ah, eu gosto dela, sim – respondeu Calígula, fitando-me com ar pensativo.
Meu coração bateu mais forte.
– Então será fácil. Tudo o que você tem a fazer é se casar com ela.
– Casar com ela! – exclamou, dando uma risada sem alegria. – Não me parece apropriado. Ela é uma moça fogosa, sem dúvida, muito fogosa, mas um pouco cheia de si demais para o meu gosto. Nenhum de vocês da linhagem de Próculo, conhece seu lugar. Você, Claudia, é a pior de todos, com seu jeito arrogante. Não sei por que meus pais gostam tanto de você. Quem pensa que é, para entrar aqui e ter a pretensão de me dizer o que fazer?
Baixei os olhos, intuindo que só fizera piorar as coisas. Não havia esperança.
– E, então, onde está a sua famosa vidência agora? – alfinetou Calígula. Com um floreio, afastou as cobertas. – Ela já lhe mostrou alguma coisa assim?
– Oh! – exclamei, sentindo o rosto pegar fogo ao ver seu corpo nu.
Calígula fitou-me com maldosa satisfação, os olhos cintilando de orgulho.
– Ora, vamos, Cláudia, você tem sempre algo a dizer. Não está impressionada?
Uma violenta onda de náusea tomou conta de mim. Rangi os dentes.
– É só isso? – Consegui zombar, de algum modo. – Eu tinha ouvido falar que eles eram maiores.”

A Mulher de Pilatos é uma obra que vale a leitura.

Não porque tenha uma nova teoria, ou apresente documentos históricos contundentes sobre esse ou aquele fato, mas, simplesmente, porque, ao contrário, não pretende possuir respostas, e sim apresentar possibilidades.

A história remonta a Roma antiga, já em decadência, prestes a ser governada pelo Calígula acima, marcada pelo jogo de poder, intrigas e traições. Narra a vida nas áreas conquistadas pelos romanos, o dia-a-dia das pessoas de uma época efervescente, cheia de misticismo, e contrastes, e deixa entrever as mudanças trazidas pela moral cristã.

A autora traz à vida uma mulher, como outra qualquer, que presenciou inúmeras mudanças em seu mundo, teve sua família massacrada, casou com um homem, o amou, odiou, traiu, foi traída, e por fim perdoou! Uma mulher cuja vidência levou a infinitos sofrimentos, pois não conseguia mudar o que o destino traçara, e que, levada por essa vidência, tentou salvar um homem, que iria marcar profundamente a humanidade.

A Cláudia apresentada era uma pessoa de seu tempo. Premida pelas limitações de seu sexo, mesmo sendo da classe dominante, marcada por um forte misticismo, principalmente, o culto à Deusa egípcia Isis, e atormentada por sonhos terríveis, que, infelizmente, sempre se tornavam realidade. Era a filha de um comandante romano, de família próxima a do Imperador, e viveu sua infância na Germânia, visitou Roma, conheceu Tibério, e passou longas temporadas viajando pelo Império Romano.

E, por fim, casada, acompanhou seu marido à longínqua Jerusalém, numa promoção, que mais se assemelhava a uma deportação, participando de um evento que até hoje traz conseqüências para o mundo ocidental, e provoca inúmeras polêmicas, sendo, contudo, o motivo de não terem sido esquecidos nas areias do tempo os nomes de Cláudia Prócula e seu marido, Pôncio Pilatos.

“– Ah, Raquel, você não entende. Não pode entender. Não viu as coisas que vi nem ouviu aquelas palavras terríveis. Executar Jesus seria um contra-senso. Ele é um homem bom que só deseja a paz. Meus sonhos me dizem que sua morte será o começo de guerras e desavenças intermináveis. Uma grande escuridão descerá sobre o mundo. Ninguém se lembrará do que Jesus realmente disse, e o nome de Pôncio Pilatos se eternizará de forma terrível. Tenho que impedir isso.”

E Cláudia novamente estava certa!

Eu gostei do texto, talvez por trazer ingredientes históricos, mostrando o cotidiano das pessoas daquela época, com suas tristeza e vitórias. São personagens reais, bons e maus, sem uma mocinha desesperada e um grande herói, mas pessoas, que podem realmente ter vivido daquela forma, ou de maneira muito próxima a apresentada, e a despeito do tema religioso, o livro não traz especificamente um viés para esse assunto, e não pretende ter esse como seu objetivo principal, e sequer como pano de fundo. É história da Cláudia, uma mulher muito interessante, forte, e cujo destino estava traçado, para ter sua vida lembrada no futuro!

Indico a leitura, mas alerto para que o leitor mantenha a mente aberta, sabendo que tudo é possível, e não se deixando levar, é preciso pensar muito sobre o que é apresentado! Divirtam-se!

8 comentários:

Driza disse...

Oi Dri
gostei de sua interpretação do livro e acho que gostaria de lê-lo tb. Vou procurá-lo...
bjs

Regina disse...

Já tinha ouvido falar muito bem desse livro, mas sua opinião ajudou a reforçar a vontade de lê-lo.

bjs

Liliane Cristine disse...

Seja muito bem vinda em seu primeiro post Dri!!

Parabéns amiga, vc arrasou!
E me instigou muito a conhecer tb essa leitura, que parece ser muito interessante realmente!

Está tudo ótimo e continue assim, nos deliciando com sua clareza e interpretação!

bjs
Lili

Adriana disse...

Meninas, muito obrigada pelo apoio, dá um friozinho na barriga postar, né?
Mas eu gostei.
Driza, é um livro polêmico!
Rê, se vc se interessa por história antiga, é um prato cheio, pq as reconstituições são muito boas.
Lili! Brigadim!

Jeanne Rodrigues disse...

Dri...

Adorei seu post, ficou danado de bom mesmo.
Qto ao frio na barriga ainda não me acostumei..Reviso mil vezes, corrigo dez mil e ainda assim não fica do jeito que eu queria...

Mas o seu ficou otimo e a dica foi anotada.

Bjosss,

Vivi Bastos disse...

O primeiro post a gente nunca esquece...rsrss

Parabéns, Dri. Esse livro parece ser o meu número. Adoro esse estilo. Li a série As memórias de Cleopatra não sei quantas vezes...e continuarei lendo até decorar tudinho...rsrs

Muito bom!

Beijos
Vivi

Izabel Cristina disse...

Também amei o livro. Ele faz com que a gente se sinta bem próxima da personagem.Prende muito o leitor. Achei fascinante!
Beijos , Izabel

mariana disse...

Oi Dri!!!
Amei muito esse livro, tanto que é um dos pouquíssimos que não troco!Apesar de não ser "Cristã", amo tudo que se passe na época de Jesus!Quem gosta dessa época indico Médico de Homens e de Almas, maravilhoso, tem também O Grande Amigo de Deus, da mesma autora Taylor Caldwell, mas esse não gostei tanto!Ah, e tem uns que eu tô lendo ainda:Duas Mulheres da Galiléia e O Segredo de Caifás.Depois venho aqui dizer o que achei!
Beijos!!!

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